audácia

eu, refém desses olhos de poeta,
às vezes tenho a audácia
de fugir da poesia

mas é sempre trabalho vão
e a poesia capilariza-se em forma de dor
e de loucura
por todo o corpo
por todo o oco

tento silenciá-la
tento congelá-la
tento reabsorvê-la

mas é sempre tarde demais
o tempo dos poetas
e por isso essa nostalgia misteriosa:
o tempo já passou longe, bem longe,
um segundo depois de a beleza
arrancar de mim um poema

Sponsored Post Learn from the experts: Create a successful blog with our brand new courseThe WordPress.com Blog

Are you new to blogging, and do you want step-by-step guidance on how to publish and grow your blog? Learn more about our new Blogging for Beginners course and get 50% off through December 10th.

WordPress.com is excited to announce our newest offering: a course just for beginning bloggers where you’ll learn everything you need to know about blogging from the most trusted experts in the industry. We have helped millions of blogs get up and running, we know what works, and we want you to to know everything we know. This course provides all the fundamental skills and inspiration you need to get your blog started, an interactive community forum, and content updated annually.

século XXI

ouço um boato distante de que o século XXI acabou de começar.

os rumores das ruas já não tão cheias
atravessam o tecido das máscaras
e todas as vozes
como todas as fotos
e todos os desejos
estão levemente filtrados
abafados

os olhos agora ganham destaque
e aprendi a significar os músculos das testas

Darwin tem um livro sobre as expressões faciais dos animais
e desde tempos chimpanzeicos ou antes
na testa temos esse pequeno fosso
que se aprofunda entre as sombrancelhas
quando as dores apertam na mente

nós, humanos autocentrados
nas nossas sombrancelhas e testas
acreditamos que o vírus só diz morte

mas não nos damos conta
que ele só quer se multiplicar
como tudo que é vida ou quase vida

assim como nós nos multiplicamos
apesar da morte que ocupa
o avesso de cada segundo

turvo espelho

DA VINCI'S BLOBS | LEBBEUS WOODS
Desenho do movimento da água, do Leonardo da Vinci

turvo espelho
turvo espelho d’água
de narciso

com sua cara desfigurada
pelas mãos-esconderijo
sangrara na morada
do reflexo-regozijo
e o olhar se afogara
num vermelho indeciso

turvo espelho
turvo espelho d’água
de narciso

não há face na mirada
nem reflexo preciso
o espelho era nonada
na travessia um indiviso
a água desfigurada
fez figura o esconderijo

turvo espelho
turvo espelho d’água
de narciso

Uns Versos

Georgia O'Keeffe Horse's Skull with Pink Rose Notecard Set – LACMA Store
Horse’s Skull with a Pink Rose (1931) – Georgia O’keeffe

 

 

I.

O Verbo é retalho na tecelagem
de uma vida além da letra
costurada no infinito

Poesia é ato de coragem:
busco a pergunta correta
no silêncio que enlaça o grito.

 

II.

erigir um verso
na ausência de sentido
que consome
some
some
decolar um verso
na denúncia do perigo
que assuma
suma
suma
flutuar um verso
na renúncia do abismo
que assoma
soma
soma

 

 
III.

se pudesse
a criança que me escreve
atravessaria minhas carnes
como se atravessa um pântano

 
IV.

te-mente de cegar-se
com o brilho de seus ouros
perfurara os seus olhos
com o rastilho de seus louros.

 

 

V.

na audácia dos poetas
que captura a beleza
entre o opaco da palavra
mora, tímido,
um pôr-do-sol indizível.

 
VI.

sonho texturas e tatos:

meu corpo onírico quer o abraço das nuvens
meus lábios aguardam a serena gota
e meus pés não veem a hora
do encontro profundo
com uma rua onde não se sinta
o cheiro do medo.

 

 

VII.

tenho cá tantas dúvidas
que às vezes acredito
que rezo para um deus
em formato de interrogação.

 

 

VIII.
quero condensar meus excessos:
deixar que as poucas vigas
de meus poucos versos
sustentem a pérola ausente
que absinto em abscesso.

 
IX.

estou com um nós na garganta
e não há espaço
para a nota que canta
buscando o céu
nas grades do corpo