Uns Versos

Georgia O'Keeffe Horse's Skull with Pink Rose Notecard Set – LACMA Store
Horse’s Skull with a Pink Rose (1931) – Georgia O’keeffe

 

 

I.

O Verbo é retalho na tecelagem
de uma vida além da letra
costurada no infinito

Poesia é ato de coragem:
busco a pergunta correta
no silêncio que enlaça o grito.

 

II.

erigir um verso
na ausência de sentido
que consome
some
some
decolar um verso
na denúncia do perigo
que assuma
suma
suma
flutuar um verso
na renúncia do abismo
que assoma
soma
soma

 

 
III.

se pudesse
a criança que me escreve
atravessaria minhas carnes
como se atravessa um pântano

 
IV.

te-mente de cegar-se
com o brilho de seus ouros
perfurara os seus olhos
com o rastilho de seus louros.

 

 

V.

na audácia dos poetas
que captura a beleza
entre o opaco da palavra
mora, tímido,
um pôr-do-sol indizível.

 
VI.

sonho texturas e tatos:

meu corpo onírico quer o abraço das nuvens
meus lábios aguardam a serena gota
e meus pés não veem a hora
do encontro profundo
com uma rua onde não se sinta
o cheiro do medo.

 

 

VII.

tenho cá tantas dúvidas
que às vezes acredito
que rezo para um deus
em formato de interrogação.

 

 

VIII.
quero condensar meus excessos:
deixar que as poucas vigas
de meus poucos versos
sustentem a pérola ausente
que absinto em abscesso.

 
IX.

estou com um nós na garganta
e não há espaço
para a nota que canta
buscando o céu
nas grades do corpo

Que diabo é isso? – Parte 1

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Nunca uma novela da globo tinha parado de passar assim do nada. Dona Rosenildes, que levantava da calçada no fim da tarde para ir ver a novela das seis enquanto fazia a janta, que jantava vendo a novela das sete e dormia durante e depois da novela das nove, Rosenildes agora já não tem a mesma novela, colocaram uma novela antiga de repente e pra completar o jornal não mostra mais nada que não seja essa gripe que dona Rosenildes nem acredita que vá chegar ali naquele fim de mundo.

Firmino, pedreiro desde 94, nunca quebrou um osso, nunca pegou resfriado nem em tempo de chuva e comia rapadura com farinha todo dia depois do almoço ou, antigamente em tempo ruim, no lugar do almoço. Firmino foi na rua comprar dois pacotes de rejunte pra se livrar da obra daquele corno e chegando na rua o povo tava todo com umas máscaras iguais às de hospital e com uns plásticos na frente da cara pra se proteger de um tal de coronavírus que ele tinha ouvido na rádio hoje de manhã. Firmino se picou com o rejunte pra casa dele e pediu pra mulher mandar avisar ao patrão que não ia mais sair de casa não que o povo tava todo doido e ele não gostava de doido.

Luzinéia trabalha na casa mais bonita da praça Artur da Costa e Silva, foi dispensada pela patroa que não queria que ela passasse na rua e chegasse em casa suja de vírus, e recebeu uma cesta básica e um até qualquer hora. Sábado foi na feira e descobriu que não ia ter feira mesmo, que o prefeito mandou todo mundo ficar em casa mesmo o presidente dizendo que era frescura no zapzap. Nunca na vida, nem na seca que teve em 92, que a feira parou de ter, então Luzinéia teve medo, lembrou da sua prima que teve aquela paralisia quando elas eram crianças e morreu em 87, e se picou pra dentro de casa. Teve de pedir pra vizinha que tinha quintal uma dúzia de banana e um mói de coentro e pra cunhada um litro de feijão pra comer com os filhos durante a semana.

Wéverton Lucas estuda na maior escola municipal de ensino fundamental, aquela que ano que vem vai ser militarizada, é o melhor aluno de português e o seu dia preferido era terça  quando pode tomar iogurte de morango de uma caneca azul de plástico e comer dois biscoitos de chocolate que vinham enrolados num guardanapo. Wéverton contava sempre com o lanche da escola como sua primeira refeição do dia e se esforçava bastante pois sua mãe disse que se tirasse nota ruim eles não teriam o dinheiro do governo para poder comer a segunda refeição do dia. A escola de Wéverton parou e ele foi na casa da professora perguntar se sem ter prova ele não teria como provar pro governo que ele é esforçado e se por causa disso a mãe dele ia parar de receber o bolsa família. A professora disse que ela ia falar com o governo que ele continuava estudando.

Jocicleide dos Santos ia pra igreja todo sábado quando ajudava a limpar as salas de catecismo e todo domingo quando ia pra missa das seis horas com suas duas meninas de 8 e

10 anos de idade. Fazia tudo isso porque sabia que precisava da ajuda de deus,  já que não tinha marido e trabalhava de atendente de uma loja de importados (antiga loja de 1,99) durante a semana pra criar as duas filhas. A missa parou de acontecer porque o padre disse que deus não nos protege dos males dos homens e a dona da loja onde Jocicleide trabalha disse que é pra ela continuar indo que eles tão com as portas fechadas só pra polícia não pegar, mas que ainda estão vendendo os produtos pra quem é conhecido e sabe pelo grupo do zap que na verdade a loja não fechou. Jocicleide dá graças a deus que tem como comprar o cuscuz e as xuxinhas das meninas.

Maria das Dores é feirante tem uma casa a 40 minutos de jegue e 10 minutos de carro da sede da cidade. Planta aipim, batata doce, tem um pé de umbu, dois de manga, uns pinguinho de pé de folha, 6 pé de laranja e, até o almoço da semana que vem, 4 cabeça de bode. Das Dô, como é conhecida, foi avisada por um polícia que essa semana não podia ter feira e que era pra ela ficar em casa porque já tinha uns 300 anos de idade e aquela gripe ia pegar. Das dô retou-se, disse que não tinha medo de diabo de colônia e de covidia nenhuma, e foi de porta em porta tentar vender suas coisas, com o menino mais velho de sua filha mais nova carregando tudo num carrinho de mão. O povo ficava feliz de ver chegar feira mas das dô percebeu que ninguém encostava nela e que os povo tavam tudo com umas máscara e dizendo a mesma ladainha “das dô, mulher, vai pra casa que esse bicho te pega”. Pro último que falou isso Das Dô mandou enfiar o aipim no rabo que ela tinha vergonha na cara e não ia ficar com as perna pra cima que nem esses fresco não.

Que diabo é isso?