Pequena Lista de Certezas

 

Água de coco é uma benção.

O quentinho do edredom é doce caverna.

O sol nascendo é uma pergunta retórica.

A água do mar minimiza minhas lágrimas. 

O cheiro de mato cria meus pulmões. 

O barulho de cachoeira engendra outro tempo. 

Eu já fui uma lagoa.

O pôr-do-sol dá cor ao vazio. 

 

Quem fecunda o Brasil é o Rio São Francisco.

Guimarães Rosa brotou de um buriti.

Milton Nascimento tem a garganta de Deus.

João Gilberto pariu a beleza.

Oxalá é filho de Gilberto Gil.

O violão do Guinga é um berço. 

A voz de Maria Bethânia é.

 

Machado de Assis era um quilombo.

Carolina Maria de Jesus é o divã.

Mbembe teve compaixão por Kant.

Schopenhauer brotou de Buda.

Nietzsche fez um jardim com bombas atômicas.

 

Mallarmé tricotou engrenagens.

São Paulo é uma selva de Campos.

Fernando Pessoa está para nascer.

Quem me educou foi Drummond.

O perfume da palavra criou Cecília Meireles.

 

Goethe permitiu o infinito.

James Joyce menstruou o impossível.

Clarice Lispector inventou a mulher.

A psicanálise me faz cócegas. 

 

O desenho me surpreende. 

A criação da canção me revela. 

A palavra me existe.

A poesia.

 

pobre pátria sem raiz

Charge de Gabriel Tropz

 
ó, pátria de filhos sedentos por pai
ó, pátria que busca suas arestas
ó, pátria que treme de medo do desamparo
ó, pátria, elegera a pantomima paterna para salvar-se

pobre pátria sem raiz

à beira do colapsalucinatório
quis engendrar o paideal o paimpiedoso
à beira da falta de beira
quis boquetear seus resmungos infantes

pobre pátria sem raiz

o pai colonial no caleidoscópio de suas colonoscópias
ó, pátria, a bolsa no ventre infertiliza as cornucópias

pobre pátria sem raiz

à beira de um abismo de proeminências virtuais
quis agarrar-se a um berro familiar
ó, pátria, aplaudindo os patrocínios do império
ó, pátria, ereta falácia num cemitério

pobre pátria sem raiz