A Persistência da Libido

A Persistência da Memória – Wikipédia, a enciclopédia livre
A Persistência da Memória, do Salvador Dalí

 Assim como os professores, as putas estão adaptando-se ao trabalho virtual nessa quarentena maldita. Sei disso não por ser puta nem por ser professora, mas por ainda ter bons ouvidos e janelas abertas. Explico-te: Às vezes ouço os vizinhos e suas conversas que passeiam entre um prédio e outro, mas nada muito doentio, pelo contrário, é só por acaso, do mesmo acaso que me permite ler infindáveis discussões de relacionamento nos celulares alheios quando ando de ônibus.

  Pois não é que um dia desses – não me peça tempo exato, se foi ontem ou três semanas atrás –  estava eu a umas supostas cinco da tarde deitada no tapete da sala, entre olhar para o nada e olhar para um livro, quando ouço o estrondo testosterônico de uma voz masculina vindo do bloco B, aproximadamente 3º andar:

– Que vontade de ir no puteiro!

 Ora, amigos, esse pranto, esse clamor, essa demonstração apunhetada de sentimentos bateu em minha alma como um chicote mal empunhado numa sala de fetiches. Tão ridícula quanto o coçar de um saco em um momento de insegurança mas tão pueril quanto o ímpeto adolescente de encher de ar uma camisinha para transar ao vento suas fantasias no recreio da escola, aquela frase, gozosa frase, lembrou-me de um assunto que repentinamente bateu-se fundamental: As putas. Que fim teriam as putas na quarentena?

 Não me venha o leitor, a leitora ou x leitorx reclamar-me do uso do termo ou discutir sobre a legitimidade ou a barbaridade da prostituição. À parte as grandes discussões das rodas de conversa feministas sobre a justiça ou a injustiça de ser puta, o fato é que desde que o ovo do mundo se pôs, se pôs também a puta. Se quem veio primeiro foi a puta ou a galinha, deixemos para discutir em momento mais propício.

  O negócio é que o negócio (bem como a vida) da puta é talvez um dos elos mais frágeis no meio dessa pandemia. Quem irá arriscar-se a foder assim, pagando, expondo-se a uma desconhecida (ou até mesmo a uma conhecida), a gastar com espermicida e não com álcool em gel? E principalmente penso nas putas, que tanto se cuidam para, a despeito da insalubridade de seu ofício, não se infectarem com as doenças de seus clientes. Quais inesperados EPIs teriam de adicionar às suas sacolas de farmácia? Quais as limitações novas que deveriam impor aos seus desejosos pagantes? Não mais fariam a parte oral do trabalho? Envolver-se-iam completamente em látex? E me vi jorrando conjecturas.

 No meu insight disparatado daquele fim de tarde de repente ouço novamente um barulho vindo do que – supus em inocência – fosse o mesmo apartamento do bloco B. Mas agora era um barulho com chiados, de uma caixa de som vagabunda, que entrecortava-se ritmicamente pela sobrecarga ou incompetência do servidor de internet. Sim, querida pessoa que está cá a ler um texto sobre puta num mundo em colapso, era o eminente rapaz a fazer uma chamada de vídeo com uma puta pela internet. Como eu sei disso? Ouvi o barulhinho do aplicativo, o rapaz não se preocupava com privacidades ou janelas, e juntei as peças com um epóxi especial de libido imaginativa.

 

 A partir desse momento, ouvindo algo parecido com “quem é o meu machão?” vindo de lá, comecei a pensar em toda a adaptação que exigia a atual situação global (ou pl-anal, a depender de suas preferências). Li um artigo que falava sobre como os professores, não bastasse o mau pagamento e a onda de obscurantismo no país, estavam sendo obrigados a virar youtubers, a tomar lições de comunicação com jovens de classe média que fizeram fortuna no mundo virtual. É como se o ano letivo fosse um desses poucos fios onde se agarra a sociedade para acreditar que é possível manter alguma normalidade diante do caos inesperado. A gente pode até fingir controle por um tempo, porém o luto da velha ordem social há de ser tão inevitável quanto a ejaculação do expansivo jovem da vizinhança.

 Mas eu divago. Ouvia ainda ruídos da puta, gemidos automáticos, suspiros indeterminados. Teve de virar puta virtual assim, de repente! Com tanta concorrência! Estava tranquila, ou ao menos acostumada, protegida pela benção de Maria Madalena, a trabalhar ao vivo, a deixar o corpo ser seu instrumento direto de labor, e já suportava até bem os lambuzos. Mas teria de aprender agora a disfarçar mais ainda a cara de nojo ou desprezo, já que a câmera capta bem mais do que um olho em vertigem. Teria, também, que trabalhar mais a sua capacidade de despertar o tesão através da fala e de gemidos, que agora haveria de ser aprimorada com uma live de um coach de oratória ou qualquer coisa do tipo que se utilize para aprender nesses novos tempos.

O pior de tudo, entre todas essas novas condutas de trabalho, seria ter de realmente ver o rosto e o resto dos clientes; de elogiar, apesar do zoom, seus pentelhos mal aparados; ter de mentir descaradamente sobre seus sacos murchos sem a proteção da meia-luz que em seu bordel servia-lhe para disfarçar os meios sorrisos e inteiras caretas.

Compadeci-me, dali das minhas preocupações atípicas, da situação dessa nova web-puta. Será que resistirá ao desemprego estrutural nessa época de robôs sexuais, bonecas infláveis, vibradores, x-vídeos, redtube? Será que conseguirá sobreviver a essa quarentena sem se arriscar ou terá de ceder a um negacionista tarado qualquer, que com sua camisa verde e amarela nem lavará as mãos antes de tocá-la? Conseguirá disfarçar o riso e o asco ou sofrerá a denúncia pixelada da webcam?

Ouço o barulhinho de final de chamada e então, finalmente, o fechar da janela. 

A tarde caiu indiferente a mim, à puta, ao homem e ao vírus.

Só nos resta armazenar o tesão.

Corpo Estranho

I.

Eu, que já estranho esse corpo há tanto e o sinto como um parasita a sugar as atenções e energias do meu pensar, eu, que há tanto esqueço que tudo é dessa mesma matéria e quando lembro é a matéria a me beliscar para que eu acorde do sonho do pensamento, eu, que ensimesmada dessa outra absurdez me deixo tremer pelo não saber que é estar no corpo, eu, que sinto sempre tantas dores sem nome e tantos nomes feitos de analgesia, eu, seria eu ou seria um resto, eu, que acostumada estou à solidão e ao descontrole diante de uma morte iminente que vem de dentro pra fora, eu agora me deparo com a morte que vem de fora pra dentro e em todos os lugares e não-lugares, em todo o visível e não visível, é só a morte, só a morte a nem sequer atravessar, é só a morte, a morte imanente, a morte primeva, a morte-resposta, a morte sem pergunta, a morte que dilacera as fronteiras, a morte que não se esgota e eu, cruelmente viva.

 

Qualquer sinal de corpo, qualquer pequeno letreiro imaginário que faz esse corpo, me apavora. É um assombro ridículo esse de crer, de tão religiosamente crer, que exista algo que não seja corpo nisso que sou eu. Crer, tão inocentemente crer, que existe algum possível nessa minha dor de tantos versos dessignificados, nomes vazios, nomes pelo nome, alertas de não vida, nomenstruais.

E qualquer sinal de corpo, qualquer pequeno aceno de corpo, soa como uma catástrofe. Vejo-me estrebuchando tanto a tanto e há tanto nesse campo se-minado onde piso nas flores mas sinto explosões… Dia desses um riso me pareceu uma chacina. Alerta! Alerta! Os olhos estão sempre abertos mas não enxergam nada além de miragens, os ouvidos duvidam de suas escutas e de seus zunidos, a língua perscruta o sabor de sangue no doce no azedo no sal. O corpo que se dissolve e se alimenta de corpo em suas autofagias involuntárias só sabe das fomes e dos vômitos. Tudo dá medo, um medo oblíquo, um medo serpentuoso, ora mas vocês não sabem como é um medo serpentuoso? É um medo que está sempre lá a ponto de dar o bote e você não sabe nunca se é veneno ou se é sonho.

E qualquer sinal de corpo se amplifica no próprio corpo com os ecos de meus pensamentos que – devo aceitar –  são também do corpo e se torna uma avalanche no deserto do corpo, um grande oxímoro deslizando e arrastando restos soltos de corpo sem polaridade definida, como se fosse possível essa minha bússola apontando para dentro.