maldita beleza

 

 

Confesso: Hoje eu tropecei na beleza de novo. Me vi num passeio por acidente, como quem sai para procurar emprego e se depara com um violinista no ônibus. A beleza às vezes surge como se fosse um bilhete de loteria premiado depois do velório do dono, como uma gota de orvalho na pele de um moribundo – ridiculamente inoportuna, graça extemporânea. A beleza é amoral, é inescrupulosa, e às vezes quero arrancar os olhos para não admitir que está lindo o pôr do sol entrando pela janela do meu quarto enquanto estou de quarentena num país quase em colapso. Mas a beleza vem apesar da miséria, apesar da loucura, apesar do claustro. A beleza não tem pena e não espera que a dor do mundo cesse. A beleza atravessa.

Ela sequer se sente desafiada pela feiura, não!  Ela desdenha da feiura, ignora a feiura como se ignora um semiconhecido do outro lado da rua. A beleza desfila, com seu manto nu, por toda a minha angústia, como se fosse a dor uma passarela. É afrontosa. Teimosa como uma menina de 12 anos, a beleza ri baixinho para não denunciar suas travessuras…Mas, veja: ela não deixa de rir. Está aqui, irritantemente aqui, num livro do Guimarães Rosa, numa peça do Zé Celso, na gargalhada da criança do apartamento ao lado. E é quase insuportável a beleza que permanece nas canções apesar do silêncio das ruas. A beleza não se assusta. A beleza é uma dança no abismo.

Eu tô com raiva da beleza. Eu quero dar uma surra na beleza.

Mas ela me acaricia.