desconfiando

 

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Penélope

Eu não sei, eu nunca soube acreditar. No meu íntimo, só acredito que haverá abismo em vez de chão quando eu der o próximo passo. O chão parece sempre improvável demais para esses pés que não conhecem a firmeza. Eu vacilo, oscilo, mal sei ficar em pé. Eu procuro a fenda, o fosso, o fundo, que não sei do que é sólido, não sei das permanências. Não sei respirar e take it for granted: é sempre uma batalha, um pavor, um sabor de inalcançável. E nesse caminhar medroso, eu é que torno tudo inalcançável -Vou longe. Não consigo acreditar que algo é possível nem consigo acreditar na minha crença ou descrença e vivo nesse relativismo totalitário, incapaz de confiar em meus próprios pensamentos. 

 

Numa corda bamba em chamas eu respiro fundo e canto um mantra. Tento racionalizar e ver que estou apenas num meio-fio, mas a verdade é que dentro de mim as sensações às vezes se penduram numa torre tão alta numa corda tão frouxa, cheia de fios imprecisos… E eu acabo desconfiando e fiando, como Penélope com sua manta, mas não me cubro, não me salvo e minha espera é pela tragédia, nunca pelo herói. Alguma parte de mim está costurada à ideia de que a tragédia me salvaria? E eu fio e desconfio mais uma vez.

 

Penso que é preciso ter fé em algo fora de mim para que eu possa abraçar isso a que chamo de Eu. Não estou falando de espiritualidades e transcendências, pelo contrário. Preciso ter fé que faz sentido essa cadeira. Que faz sentido essa letra s ter o formato de s e o som de s e z. Preciso ter fé no valor de alguma coisa e no valor de meu crescimento, da minha vida, da minha independência. Preciso ter fé em alguma espécie de sentimento para que eu possa vivê-los sem achar que estou mergulhando numa miragem e, assim, escarnecê-los, pisoteá-los, tacar fogo mesmo. A fé não move montanhas mas pelo menos possibilita o chão. E eu não sei se meus pés suportam o chão, os vejo ingênuos e pervertidos para as plumas.

 

Essa caixinha de plástico, essa bijouteria de sonho, esse colarzinho trançado com fios de imperfeição, no baú precioso de minha memória, tudo isso deveria trazer-me alguma resposta. O desconforto em relação ao amor e ao futuro tem me dilacerado e tudo isso porque não consigo engolir sequer uma ficção social de forma aceitável, eu tenho que duvidar de tudo e ficar só com a certa, impenetrável, invencível angústia. Todo o meu duvidar é uma cerca em torno da minha angústia, me impedindo de deixar a boiada de minha alma sair para pastar onde não houver secura.  

Meu deus! Eu não sou Ulisses, eu sou Penélope. É essa a loucura que me assola. Querer encaixar a Odisseia no meu trono de esperas. Tecendo e destecendo a mim mesma até que chegue a hora derradeira. Meu deus! E eu quase fiz da corda bamba o varal de meus desejos…

 

(…)