deixo que rume o tempo

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Deixo que rume o tempo e o espaço como ruma o cavalo na estrada de terra da terra onde nasci. Há lugares em que o tempo e o espaço são vagarosos como são vagarosas as grandes verdades e eu busco uma gota de tempo no retorno ao que me constitui. Os sentidos se contra-atravessam e os sentimentos atacam e contra-atacam sem pena sem alento sem desejo sem razão quem diria quem diria ninguém diria e por isso eu digo.

 

O bicho que pulsa em meu peito não tem peles nem pelos, é só víscera. Eu vivo na víscera que vive na pele e é como se existir fosse parasitar meu próprio corpo. Pareço serena e sei ser serena por saber respirar e tolerar-me decomposta. É tamanho o desconforto que travo e não vivo senão para dar vida a esse eterno morrer-se. Tenho vergonha do que escrevo de real e até no meu confessionário de verso eu me transformo em uma alegoria patética. Coço.

 

É um filme de suspense em cada centímetro de mim. Me pergunto tantas coisas e pego a interrogação e faço de brincos para disfarçar os receios. Enfeitei-me de dúvidas quando na verdade sou feita de mistérios. Feita por dentro de mistérios e rindo das roupas transparentes do imperador nu cujas modas todos insistem em imitar. Não sei ser nesse mundo de desfiles tantos desfiladeiros desencontros tantos.

 

(…)

Ultracorpórea

 

1.

Tateio no corpo um saber 

Que me antecede 

E a máscara de dormência

Nas entranhas de meu rosto

Mostra mais que todos os retratos

E todos os poemas

Chulos,

Desencarnados

 

2.

Eu sou um braço de mar

Numa vida de desertos

E busco no horizonte

Qualquer gota que me explique

Qualquer onda que me saiba

Qualquer céu que me reflita

 

3.

Eu sou aquela das solidões desenfreadas

Atropelando amores, ilusões e grandes planos

Ingênua de suas próprias cores

Virgem de certezas

Promíscua de sonhos

 

4.

Transito entre o sabor das pedras

E a ventania da víscera.

Sou dada às incoerências

Das verdades que não se sabem verdades.

Tenho na língua e no oco

Tudo que impreciso

E por isso sei que é indispensável

Crer nas frivolidades

E seus gritos.

 

Gosto de comer a boca

Enquanto durmo.

Poupo apenas o céu

E coloco os dentes

Afiados e rebeldes

Para contemplar o breu

De onde gemem de redescobertas

As palavras ante-nascidas.

 

6.

O tutano do poema 

É um verbo omitido.

 

7.

Esqueço dos ossos

E vivo das molezas,

Dessa indecisão da carne

Insurreta de permanências.

 

8.

Presto muita atenção e pouco afeto

Aos medos e às manchas que me aparecem.

 

9.

Amarrei a morte ao meu pé 

Para fugir dela a todo tempo

Sem nunca deixá-la ir.

Às vezes sinto que me morde

Às vezes sinto que me leva

Noutras creio que devo

Arrancar-me o corpo

Por não saber desatar o nó

Dessa corda invisível.

 

10.

Respiro esquecimentos e sustos.

 

11.

Às vezes sonho

Que estou fantasiada de mim mesma

E a qualquer momento poderei sair desse corpo 

E ser livre.

 

Então acordo

E, pior do que cair de penhasco onírico,

Caio em mim

E me vejo abismo.