Mal de São

 

 

Colagem de Hannah Höch
Hanna Hoch

 

Esse negócio estranho
de seguir o destino
de um sonho de outra cabeça
é mal de são.

Nós,
os que sambamos
no velório das certezas

Nós,
os que gozamos
com a língua
tortográfica

O nosso santo
não bate
no mesmo meio-dia

Nós carregamos
uma varinha mágica
que na verdade é redonda
e tem um verso
que junta arestas

E esse negócio estranho
de acreditar
numa tal de verdade

Esse negócio estranho
pra nós,
os que cremos apenas
no deus ateu do absurdo,

Esse negócio estranho
é verme criado em água sanitária,
é lama mal-dita,
é Mal de são.

Toda Menina Toda

 

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Creacion de Las Aves de Remedios Varo

 

Toda menina
é expulsa de si mesma
quando um mundo de homens
a coloniza.

Eis as diásporas de sua alma:

primeiro fugiu o corpo livre,
o corpo solto, o corpo inquieto.

depois fugiu a palavra
que não tinha destinatário
por não haver escuta

então fugiu o desejo
sem corpo, sem verbo,
ficara numa cela solitária
daquilo a que chamariam “fêmea”

E aquela, a dona do corpo, do verbo e da vontade,
grita o tempo inteiro em suas recusas
esperneia na perna que treme por baixo das pernas cruzadas

E aquela, a que é exilada dentro de si mesma,
constrói um lar entre seus silêncios e rupturas,
funda uma mátria que abriga outras mátrias
por não precisar de fronteiras

E toda menina
por mais colonizada que seja
desse império de falas e falos sem falhas
sabe, lá no fundo do seu mistério,
que é inevitável ser mulher.

Vilancete do Anjo da História

Tenho é medo da história
Que volta sempre ao horror;
Anjo de tempo e temor!

O povo aguarda glória
Quando o fascismo cala
Mas ele está na vala
Escondido na escória
Nos porões da memória
Que volta sempre ao horror;
Anjo de tempo e temor!

E a resposta repousa
Nas mãos que sabem fazer
Nas bocas para comer
Enquanto apaga a lousa
Num medo que nunca ousa
E volta sempre ao horror;
Anjo de tempo e temor!