Corpotempo

A Anestesia do tempo
O devaneio do vento
O limite do poeta
A arte que não cessa
Lá fora

Eu quero olhar pra dentro
Eu quero estar atento
Para ser dona do meu corpo
No agora

A Anestesia do tempo
O monumento da memória
O barulho do mistério
de um outro na vida afora

Eu desafio e olho dentro
Do olho do furacão do tempo
Meu relógio é meu relento
E meu barco ruma demora

Constante

 

 

 

Me espremo nas vielas de horizontes do mundo inteiro

Para me esconder de Campo Formoso

E estico-me tanto no espaço que as bordas do tempo

Fundem o aço das minhas veias

 

Esse aço eu derramo na beira

E afogo ponteiros de um relógio

Alçando coordenadas geográficas…

 

A vida inteira ainda não saí daquelas ruas

Nas quais não piso mas sonho

E é densa a hora que cinge minha história

Num buraco anfíbio 

Num vórtex de memórias 

E atravessamentos anacrônicos

 

À mercê da luz odiosa que nas vagas relativizo

– Porque é infinda a fagulha e palpável o infinito –

Sinto em mim o breu de ser a anti-resposta 

Dando tom a essa canção misteriosa

Que veste o silêncio

E ousa

 

Falam-me os olhos que desenharam minha silhueta

Cegam-me os ouvidos que devoraram minha garganta

E eu sou uma fugitiva torpe de minhas entranhas

Pois faço em tudo abismo de memória

E máscara de delírio

 

O hodierno e o eterno convalescem

Sendo eu somente a miragem a derramar horas

Como quem derrama sangue na cruz

Ou gozo nos lábios dúbios de Perséfone

 

Escorro como espetáculo

Nas beiras do espaço-tempo

Não há tempo nem mundo nem passo

E sou já sem veias e sem bússola

Num vagar em torno de mim mesma

Porque não existe norte nem destino

Nem desejo

 

Só existe Campo Formoso

E um tropeço