A Dona da Palavra

Olhei para o espelho e disse:
– Seja dona das minhas palavras!
O espelho me respondeu:
– Não até que não sejas mais eu.
 
Olhei para o passado e disse:
– Serei dona das minhas palavras!
O passado me respondeu:
– Não até que não precises ver o meu eu.
 
Olhei para o tempo e disse:
– Estou sendo dona das minhas palavras!
O tempo me respondeu:
– Não até que não creias que o mal sou eu.
 
Olhei para a morte e disse:
– Fui dona das minhas palavras!
A morte me respondeu:
– Não, que quem as possui não me conheceu.
 
Exausta e prestes a arrancar as retinas
mergulhei em mim
em busca do abismo.
 
Onde supus verbo,
vi o vazio.
 
Olhei para o vazio e disse:
– Sou a dona das minhas palavras!
E o vazio ecoou:
– Sou a dona das minhas palavras!
Sou
a
dona
das
minhas
palavras!
.
Sou
a
dona
das
minhas
palavras!
.
.
.
.
(E nunca mais precisei esperar resposta)

Canção da Desentendida

Imagem relacionada
The Moon-Woman Cuts the Circle (1943) do Jackson Pollock
 
 
Sinceramente
não entendo as vielas do corpo
não entendo esse poder ao avesso
que, sem pompa, comanda minhas multidões.
 
Não entendo esses limites da carne
e esses avessos da carne na pele
e esses avessos de mim no outro
que o espelho me mostra
porque peço para enxergar.
 
Não entendo tanta dor que pulsa
e essas células de meu desejo oculto
que amplificam-me para que eu me contorça
em vez de caminhar.
 
Não entendo esse torcer das horas
e essa torcida pela morte que escorre
pelas frestas das minhas certezas.
Não entendo qual monstro em minhas veias
borbulha de tal forma
que me faço inteira fresta.
 
Não entendo o calor do que me queimo
nem o pulsar do que me latejo
nem o querer do que me quero
nem o nascer do que me morro…
 
Não entendo esse além que me limita
essa muralha que se contorce
à mercê dos avessos do sonho.
Não entendo porque sonho…
 
Não entendo por que sonho
E rasgo o sonho com meus dentes.
 
Não entendo quem me falta
por entre os dedos ágeis e sábios.
Sei fazer o belo e o gozo
mas permaneço de punho fechado
esperando de mim a terceira face
e o último golpe.
 
Não entendo o que retumba
na silenciosa hora que me interroga.
Sou feita dessa morte que escapa
e não entendo por que tão viva a palavra
mesmo quando resguarda o poeta
a sete palmos do são.