Minha Alma é um Deserto que Sangra

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Marina Abramovic
 
 
 
 
Eu venho de uma era 
onde o engano era o barro do corpo.
 
Minha alma é um deserto que sangra.
 
Por essa dor que não tem endereço
Por esse chão que se dissolve no vento
Por essas mãos que não merecem ter versos
 
Minha alma é um deserto que sangra.
 
Há um monstro em minhas entranhas
Há um outro em minhas estranhas
Agonias que se rendem a um nome
de um batismo feito sem deus.
 
Vi a criança do monstro
E quis acalentá-la naquela era
mas era eu também uma criança
que não sabia o que era colo e o que era punhal
 
Vi a criança do monstro
E quis matá-la antes que crescesse
Mas o tempo perfurara meu peito
E eu era fruto da criança sem piedade
 
Do engano fez-se meu corpo
E nas areias movediças da existência
Eu procuro qualquer lar no insondável
Eu procuro qualquer afeto que não me mate
 
Por essa busca que nunca cessa
Nem encontra sentido
Por esse mundo que é só de sede
E não soube ser acalanto nem oásis
Eu procuro os assovios do vento
Eu moro nas poeiras do verso
 
E minha alma é um deserto que sangra.
 
Por essa busca que se atravessa 
Daquele que me fez e me destruiu
Por essas lembranças que não quero minhas
Por esse olhar que me forjou como lava
Que vira solo fértil após tanta destruição
 
Minha alma é um deserto que sangra.
 
Não há como estancar o inexplorado
Não há como conter o turbilhão 
 
Esse oco ressoa tempestades
 
E minha alma é um deserto que sangra.
 
O que quer que eu tenha sido
O que quer que queira ser
O que quer que tenha me feito 
Esse eu de tanta palavra e pouca constância
Há de morrer em sua mentira
Pelas mãos trêmulas da minha verdade
 
Quis arrancar minha garganta
E fechar-me os olhos
Mas já é tempo de ser o meu tempo
E a dor de entregar a criança morta
Ao túmulo do mundo que a renega
Há de ser menor que a dor de deixá-la
A trucidar outras almas como a minha
 
Minha alma é um deserto que sangra
E eu bebo seu sangue
E arranco esse punhal
E aborto seu feto senil.

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Navigation – Susan Strauss

navegando nesse mar de vertigem
tenho olhos de lupa
 
vivo
aumento
viajo
 
procuro sinais
desencontro a verdade
nas entrelinhas arbitrárias
do meu imaginário
 
navegando nessa noite do abismo
tenho olhos de lupa
 
lupinos
lunáticos
e uivo
 
a brisa fresca esconde 
os redemoinhos
 
procuro sinais
desencontro a verdade
nas estrelinhas imaginárias
do meu itinerário
 
 

Ampulheta

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Faço versos como quem escava ausências
ausências e minúcias – as razões da areia
que não sabe ser rocha de tanto ser furo.

Deixo meu peso e meu passo
Na beira de uma praia qualquer.
Só existem as pegadas
que desconhecem horizontes
e por isso sabem da vida.
Só existem as pegadas
que no desmanche das certezas
fazem-se caminho.

Faço versos por desconfiar
que a lacuna é quem permite:
Na intransigência do vazio
Moram todas as possibilidades
E meu instante é feito
E minha demora faz
E eu quero ser o que

Eu faço versos para saudar o verso que não chega

mas aguarda.