Dessas Mortes em Vida

O Sono da Razão Produz Monstros (Francisco de Goya, 1799)
 
 
 
Dessas mortes em vida sei muito e entendo pouco.
Como as cigarras que largam suas cascas nas árvores
e saem a voar, repletas de si,
existir é a arte dos abandonos necessários.
 
Às vezes resisto. Agarro-me
a um esqueleto frágil
que reveste e enrijece esse corpo.
Cheia de mim e de tantos eus
coleciono velharias de mim mesma,
acumulo cascas e certezas,
e não consigo decolar
com o peso de tantos excessos.
 
Abandonar é sempre um grande risco.
Como saber se não deixarei na velha casca
algo de indispensável?
E essas asas tão ingênuas de vento?
E esse corpo de mesmo molde mas tão pulsante?
É preciso aprender a pairar na dúvida
Se quiser voar de verdade.
 
Espio.
Ponho uma asa para fora
E sinto o frescor da brisa.
Vejo que ainda sou eu
A que sente, a que sabe,
a que reconhece.
Nenhum exoesqueleto
contém a espinha dorsal de meus desejos.
 
Até que, de um conta-gotas de beija flor,
 tomo coragem.
É uma coragem que amarga lá no fundo.
Sinto vontade de desistir
Por doer, por estranhar;
Mas não é o abandono uma volta sem caminho?
 
Tomo coragem e me vejo exposta.
O corpo cru recrudesce 
E desce através de seus nervos
Toda a possibilidade antes engessada.
Atordoo-me. Cambaleio.
 
Onde eu estava quando eu estava aqui
E já não sentia o mundo? 
Onde eu estava? E agora me vejo surpresa
De tanta vertigem, de tanto sentir;
E agora me vejo desejo
Num abismo de segredo
com um mundo inteiro criado
pelos limites do meu corpo.
 
Morri, me parti, 
fiz partir o cadáver
e então fui parto da minha própria história.
O mais cruel dos afetos
me libertou das minhas grades inventadas
e agora toda morte que vislumbro
é apenas um lembrete
do quanto posso estar viva.
 
E agora, toda morte que se impõe
traz no seu avesso um verso
e é com a navalha da palavra
que eu liberto minhas asas.