Pelo Direito de Chorar

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Automat (Edward Hopper, 1927)
Deveria ser socialmente aceito chorar em público.
Desde cedo aprendemos a censurar nossas lágrimas.
Quando não censuramos, romantizamos, escandalizamos.
Nunca pode ser apenas um choro.
Não é legal eu pedir um guaraná na lanchonete da esquina chorando.
Não posso simplesmente iluminar de lágrimas os passantes.
Queria doar meu choro às folhas que dançam e perfumam essa tarde, mas é estranho.
Aprendemos a dar risos falsos desde cedo.
Choros falsos são mais raros, por isso os atores de novela ganham dinheiro.
Riso falso não é nada. É tão especial quanto respirar.
Mas chorar… Chorar é visitar a verdade.
Quem não segurar o choro e puder ver sua lágrima evaporar sob o sol estará finalmente livre.
Estou.

Poema Construído

Com tijolos de vazio
– poema construído-
te digo a saudade
-presente sucumbido-
nascente do arrepio
– desejo traduzido –
que o teu corpo invade
– atentado permitido-.

Com rios de lembrança
– Futuro reprimido-
te banho por inteiro
-desejo umedecido-
com sais de esperança
-tempero do iludido-
em um doce desespero
-espera do aturdido-.

Com flores de prazer
-semente da libido-
te enfeito a beleza
-ideal já concebido-
dançante a esquecer
-alegria do sofrido-
que a perfeição pesa
-leveza do mentido-.

Com andares de amar
-desejo enternecido-
te moldo ao abraço
-caminho reduzido-
e te digo pra voltar
-lar do inesquecido-
no meu verso há espaço
-poema construído-.

 

(2012; esse poema pode ser lido de trás pra frente e também linha sim, linha não)

Gaveta

vou morar na gaveta
eu ainda não sou andressa
esse nome me é estranho
essa mulher me é estranha
olho para ela
eu, uma criança na segunda infância,
olho para ela
e me parece uma miragem
não sou também essa do espelho
esses cabelos cacheados
que sempre existiram
mas nunca foram permitidos
esse corpo roliço
com sua banhas e pêlos
também nunca permitidos
eu descobri que sou humana
que cresci
que não deu certo
o experimento
não suporto mais ouvir
que tenho um futuro brilhante.
só realça o suposto fracasso.
nunca chega
o próximo degrau
e ainda assim
sou condecorada
tão condecorada
que a escada
parece prestes
a desmoronar
estou desconexa
recusei as palavras
recusei as mulheres
recusei as obrigações
recusei as oportunidades
estou acampada numa gaveta
encolhida ali à esquerda das meias
atrás das roupas íntimas
numa caixa
preta e branca
reluzente

MERGULHEI NUMA BANHEIRA DE NUTELLA

Vou te contar. Sinto que as pessoas estão cansadas de conquistar seus sonhos. Tudo que parecia distante se tornou próximo, palpável, possível. Ao alcance de um crediário, ao alcance de um toque em uma tela. Olhamos para um lado, para outro, e sentimos falta daquela falta antiga, não entendemos por que ainda existe essa ausência, afinal, já temos tudo o que queríamos, já temos roupas, celulares, carros, casas, japonês em começo de mês. Ninguém nos disse que depois disso tudo estaríamos insatisfeitos. Ninguém.
E essa ideia absurda de que bens de consumo são de fato grandes conquistas faz com que não se veja nosso lugar diante da estrutura social. Os sinais são dissonantes: Enquanto se tem a sala parecida com a dos ricos da televisão, ainda estamos lutando no dia a dia como meros trabalhadores. Enquanto estamos nos mesmos meios de comunicação que os grandes empreendedores, nosso trabalho vendido por um preço ridículo não gera status, continua apenas gerando cansaço. Sinais dissonantes porque tudo que aprendemos com nossa recente ascensão econômica foi a pensar que a felicidade vinha realmente numa embalagem, mas é triste notar que a alegria acaba e as parcelas do cartão de crédito duram bem mais.
É, as pessoas estão cansadas de conquistar seus sonhos, pois o que se dizia sonho na verdade era necessidade básica. Dignidade. Mas vemos excesso onde antes tudo era precário. Vemos luxo onde antes havia carência. E agora andamos famintos por um algo a mais que nos impressione, pois não parece certo termos tudo isso e ainda não nos sentirmos completos. E quando chegarmos naquele outro excesso, naquele outro degrau, ainda não nos sentiremos completos. Ninguém nos disse que a vida era assim, sempre de carências, carências assustadoramente não palpáveis ou compráveis.
Eu vi meu povo se perder em busca de algo que o contivesse. Eu vi meu povo buscar espetáculo em suas conquistas de supermercado.
Meu povo mergulhou numa banheira de nutella.
Olha no que deu.