Enigma

Mostre-me um ser humano
Que diante do enigma de outro ser humano
Ouse usar a razão e evite-o
(Ora, há outro 7 bilhões de enigmas por aí…).
Mostre-me um ser humano
Que diante da vontade de descobrir-se
No enigma do outro ser humano
Não transforme a curiosidade em amor,
Ou apenas intitule-a de um modo diferente,
Chamando de sentimento este instinto humanoide
De descobrir seu lugar no universo.
Mostre-me um ser humano
Que diante do infinito poço da descoberta
Cujas paredes estão cheias de musgos
Mas também cheias de flores de brechas de sóis
Ouse desistir deste vício
Ou ouse quebra-lo sem lágrimas.
Não, ninguém ousará interromper a incrível descoberta
Da eterna ignorância que é amar.

 
Pois o amor é isto:
Querer saber até onde vai
O limite entre dois mistérios impalpáveis.

[2013]

Biografia 3

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Tive medo de Campo Formoso

Das serras me engolirem

Como engoliram os sussurros

Ouvidos ou pressupostos

Dos outros, sempre tão outros

Mas sempre tão próximos.

 

Tive medo das pedras

– Do quebra cabeça irresoluto

No calçamento antigo de minha rua –

De repente cederem

Fazendo-me descobrir que apenas pairavam

Acima de um fosso de vazio.

 

Tive medo de retornar

Sem  jornada colossal

Sem nunca ter sido heroína

E estar encurralada

No frustrar que é nem ter mais sonhos.

As serras cercam a cidade

A minha rua é sem saída

A minha casa nunca foi lar

O meu lugar me é uma ausência.

 

Tive medo de ver-me naquele céu

Ouvir-me no farfalhar das folhas

No tilintar das telhas

Das noites de inverno.

 

Existe uma saudade que ressoa:

Até a falta faz falta.

Toda fome retroalimenta.

 

Tive medo de ser vista naquele chão

E só saber rastejar.

Não me tornei grande. Sequer cresci.

Não me tornei distante. Sequer fugi.

E por mais que eu me perca

Nessas dores à deriva

Meu medo é um retorno

Que nunca saiu de lá.

Biografia 2

 

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Quando eu era criança
Morava na vila dos sonhos
E lá perto tinha uma lagoa
Que parecia cheia de mistérios
Feita de breu, jiboias e coaxos
 
Ao chover, a rua sem calçamento
Tornava-se lama e obstáculo
E nos ombros dos meus pais
Eu ia sem tocar no chão
Vivendo o escuro e a luta
Com os olhos iluminados
 
As coisas são de poesia
Até que chegue a vida do absurdo
E nos force a fazer parágrafos
Sem rima, sem palavrão;
e nos force a percorrer caminhos
em que a lama não se permita
ser tal qual mar camoniano.
 
Do bagaço do maravilhar-se
Tentam extrair-me coesão
A qualquer custo
A qualquer luto
A qualquer mundo
 
E a lagoa da vila dos sonhos
parece hoje tão pequena
e é apenas lembrança diáfana:
seu mistério se apagara
junto aos meus olhos perdidos
 
Continuo sem meus passos
À beira da velha lagoa
A assistir a lama
Que delineia a chuva sertaneja
 
Os ombros que um dia me levaram
Hoje já não suportam os sonhos.
A criança que iria voar
Decolar em meio aos esforços
Sequer aprendeu a caminhar
Naquele chão escorregadio
E imutável

Canção da Condescendência

Morreu, mas passa bem!
Pelo menos o diploma Vai pro caixão.
E nas caldeiras do inferno conseguirá
Trabalhar diretamente com o patrão.
Morreu
Graças a Deus morreu com uma formação!

Morreu, mas passa bem!
pelo menos não partiu teu coração.
Aguentou firme até que tudo desmoronasse
Pois não podia seguir seu desejo não.
Morreu
Graça a deus foi sem agir por emoção!

Morreu, mas tudo bem!
pelo menos compôs essa canção.
Morreu maluca, condenada, estrupiada
Morreu sozinha, aborrecida e frustrada…
Morreu. Muito sofreu.
Mas pelo menos tocou em teu coração.

Morreu, graças a deus!
Já nao aguentava se convencer de convenção…