Prosa Falsa

Sincronicidades horas iguais gatos atraídos coincidências absurdas paixões efêmeras mundo buscando significado vida buscando direção perdida na contemplação que busca contemplação sedenta

 

Fazendo prosa pra dizer que não quero poema medo da estrutura do poema de suas linhas meio cheias meio vazias me lembrando do que é viver do que é estar sempre incompleta

 

Medo do título poema do título poeta que tanto tive e nada me deu e da lembrança da sua impotência da sua insignificância diante da vida prática cruel absurda que tenho vivido

 

Esse excesso de caos e ausência de axioma excesso de caos e ausência de axioma excesso de caos isso tudo me alimenta até que eu finalmente morra desnutrida

 

Buscando qualquer inanição qualquer qualqueria qualquerência qualquerela tento completar as linhas para que sejam linhas, jamais versos, só quero linhas completas, quase rompendo as margens, destacar as fronteiras, arrombar a página até que ela derrame-se como nela eu me derramo

 

Querendo a resposta da página eu estou querendo a resposta da página

 

Tomei café demais e vou escrever um conto para que saia de mim todo esse pensamento de forma mais bonita e organizada

 

Era uma vez uma mulher que se derramava. Ela se derramava e mesmo assim nunca ficava vazia. Era insaciável sua vontade de botar pra fora. Era uma mulher que se deturpava porque seus derramamentos já faziam parte de seu semblante. Um dia essa mulher decidiu que não ia derramar e decidiu viver tal qual uma amoeba de derramações aleatórias congeladas. Parou de derramar no meio. Quase-coito ininterrupto. O final eu não sei pois está sendo ininterrupta sua ruptura com seu modo de ser. Era uma vez uma mulher que se derramava e congelou seus derramamentos. Sua buceta cheia de gozo como sua cabeça cheia de versos como seus afetos cheios de endereços como suas cartas cheias de destinatários como suas linhas cheias de lacunas. Como comparo, como alimento. A palavra é uma faca de dois gumes. Ela cansou de cortar e nunca ver a lacuna que a trucidava. Cansou de cortar com palavras seus excessos. Agora está uma cachoeira congelada. Talvez jamais escorra. Derreterá e virará poça? Quebrará e virará estilhaço? A palavra é uma faca de dois gumes. Um cortou o mundo que a consumia, outro cortou seu vínculo com a certeza. Escultura acidental, era uma vez uma mulher que se derramava mesmo sem querer derramar. Se derramava no tremor. No pudor de suas derrotas. Ela se derramava e mesmo assim nunca ficava vazia. Fim.

 

 

Pronto, agora que escrevi esse belíssimo conto e fiquei impressionada com minha capacidade de escrever aleatoriedades bonitas a meu próprio respeito, vou continuar na minha prosa-máscara

 

Uma paixão da qual não quero falar me disse que eu preciso de máscaras. Talvez eu realmente precise. Ou talvez ela não as tenha enxergado

 

Prosa falsa. Eu sei que é uma prosa falsa mas ainda assim me conforta não haver o poema. Não há o poema nessa prosa perdida que se derrama falsamente calmamente jocosamente não sei não sei

 

Cadeiras se arrastam no chão. Eu sou artista. O mundo me sussurra seus ritmos e seus sonhos. Eu sou artista. Os sentidos são meu caça-borboletas

 

Superfície avessa eu fico aqui com medo de ser olhada.

 

Quem teme existir de verdade? A verdade machuca o coração, me disse o louco que conversei no parque

 

Cantada quadratura da certeza eu quero desafiar a tolice do rabisco. Dar um descanso a tudo que não se recupera. Aceitar as lesões. Gentilmente aceitar o arrastar da vida pelas minhas feridas

 

ponto-vírgula