Um texto sobre minha incipiente relação com a psicanálise lacaniana

 

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Gun Crime (Noma Bar)

É bom ter um interlocutor.

Estava falando de psicanálise com minha mãe e de como a vida apresenta trajetórias inusitadas. Para ela, tudo é resultado de uma força maior, um destino, um deus, um caminho que foi gerundissimamente moldado por algo poderoso e invisível.

Apesar de tentadora e familiar a ideia de ser vista e vigiada e guiada e de que no fim tudo pode dar certo independentemente de mim, sinto que devo entender meu papel e minha caneta nisso tudo.

As minhas escolhas talvez demonstrem. A fuga dos cursos de ensino superior anteriores à psicologia, a sabotagem inusitada da medicina, a vinda para BH pela neurociência mesmo ciente de que aqui é um reduto de psicanalistas, o download da obra completa de Freud feito antes mesmo de as aulas começarem para poder “criticar sabendo” e a inevitabilidade da identificação com todo e qualquer ser humano que estivesse próximo à psicanálise, tudo isso cheira a uma vontade, a um trejeito, quiçá vocação. Toda esperança tem um pouco de misticismo, não é?

Uno às circunstâncias proporcionadas pelas minhas escolhas o meu modo de significar o que estava fora do meu escopo. O nascimento numa família humilde e sem muitas diretrizes sociais, a posição de saber que foi ocupada desde a mais tenra infância, o estímulo precoce e o exotismo dos comportamentos familiares, os abusos e assédios sofridos, a falta de privacidade e de preservação da inocência… O pai homossexual enrustido, a mãe histérica ao extremo, os avós completamente absurdos, a cidade horripilantemente pouco desenvolvida, a pobreza, a falta de acesso à cultura. Tudo isso foi significado de uma forma tal que hoje estou cá, desenhando e escrevendo minhas transas iniciais com a psicanálise.

Tudo isso. O Eu, o isso e uma superioridade oculta. Megalômana? Talvez. Um ego viciado em metonímias: tomando a parte do mundo que me admira pelo todo. Quase psicótica. Tudo é um sinal. Quase psicótica. Ciente de que jamais psicótica justamente pela ausência de certezas. Quase psicótica. Dizem muito de psicose ordinária hoje em dia. Eu sou é da desordem. A mais fértil de todas as histerias. Um ego viciado em metonímias. De tanto olho humano atravessando as janelas da minha vida, toda a vida se tornara janela e há uma platéia de olhos famintos vigiando cada passo que dou. Quase psicótica. Um ego viciado em neuroses. Quase tudo isso. Desentende-se, ainda, enquanto nada.

Sempre bom ter um interlocutor. Todos os dias sofro para escolher qual de mim estará no palco da minha tragédia. A tragédia grega servia para moralizar, dizem os eruditos. Coloco meus reles atos saídos de uma crônica de Luís Fernando Veríssimo à altura de um Eurípedes, pobre de mim! Mas coloco. Heroína trágica com seus problemas de classe média branca e seus traumas de sertaneja esquecida, coloco-me como protagonista de uma tragédia indecifrável. Todos os dias sofro para escolher qual de mim estará no palco. São muitas. A poeta, a acadêmica, a louca, a puta, a perdida, a responsável, a romântica, a musicista, a prodígio, a farsa, a criminosa, a injustiçada, a vítima, a vilã, a traída, a infiel, a conquistadora, a rejeitada… todas as dualidades as trialidades e principalmente as trivialidades e veleidades; triveleidades –sem perdão o trocadilho. São muitas. Qual delas será a rainha da minha moral? Me divirto no espaço negativo de quando ponho-me a mim como protagonista amoral. Bailando na sombra. Proscênio. Quarta parede transformada em passarela e desfilo sem saber representar, só sabendo agir e atuar. Uma alegoria de si é construção de toda verdade.

Ando em círculos. Faço esquinas indefinidas; pavor da retidão. Contornos picotados como um bordado em seu início. Eu estou aceitando o desencontro. Era eu o tempo inteiro a armadura espelhada do sujeito. As cascas da minha cebola racharam e ganhei sete anos de azar. Ouça aqui uma onomatopéia quebradiça e estridente. Era eu o tempo inteiro quando olhei nos olhos do vazio. Isso tudo para dizer que me enxerguei na psicanálise. No seu buraco negro que devora todas as imagens. Cada suspiro tem sido um esforço para saltar do imaginário e estou em queda livre. Estou em queda livre. Atravesso o vazio. Só o vazio liberta. Só o vazio ampara.

 

 

Orgasmo Suicida

 

Por não alcançar os limites da finitude
Não descarto a possibilidade do infinito
Apenas aguardo que os olhos da vida fechem
Com suas pálpebras impalpáveis.

Na ânsia da morte e do gozo
– Centelhas opostas de único prazer –
Sinto-me ainda viva,
Cruelmente viva,
Como um riso num funeral,
Uma puta em tuas preces,
Um aborto na privada,
Um orgasmo num estupro.

Insanidades chuvosas escorrem na janela
De uma solidão enclausurada por um riso
Distribuído aos inocentes e aos que serão predados
Pelo buraco negro que sou de excesso de caos
E ausência de axiomas.

Eu sou esta vontade de vida
Um segundo antes do segundo final,
Nas ampulhetas dos olhos cansados.
Eu sou esta perfeição esculpida
Um centímetro antes da lâmina
Que separa o gênio da puta guilhotinada.
Eu sou um orgasmo suicida,
Nascido do apocalipse dos meus medos,
Castrado no brilho insuportável de meus dons,
Gemendo entre a morte e a libertação.

Dos Teus Universos


Noite a noite
Nota a nota
Atravesso a luz e o silêncio
Dos teus universos.



Não sei se sei ser abrigo
À tua expansão quieta
Em que és espaço e és matéria
E orbitas oscilante
A esquecer as rédeas da gravidade.

Sei o céu das metamorfoses
E sinto a calidez da inconstância
Destes espaços infinitos de tua alma
Que não temo explorar.


Nau sem rumo dentre brilhos longínquos
Quero saber dos teus universos
Beijar-te numa perpendicularidade de estrelas
Permear sem invadir tuas dimensões.

Nau sem rumo num abismo iluminado
Quero saber dos teus universos, tuas incógnitas,
Pois habitamos a mesma imensidão.


(2016)