Minha Alma Nasce do Verso que Crio

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O Pobre Poeta – Carl Spitzweg
Minh'alma nasce do verso que crio
E por isso enraíza-se em musas e sonhos.
Não sei ser silêncio. Não quero vazio.
Eu vivo do sentir que aqui componho.


Minh'alma brota deste chão como um rio
Que há muito navega num escuro medonho.
Sou uma correnteza. Não sei ser navio.
Eu vivo do devir que às durezas imponho.


Não venha falar-me da vontade contida.
Não molhe os pés que irei afundar-te.
Não venha falar-me da quietude na dor.

Minh'alma nasce e afoga minha vida:
Sou rio de ternura, sou turbilhão e arte,
Respiro cada verso antes de o compor.


 

[2016]

Agonias Antagônicas

 

Às aflições antigas ainda ando atada
Aceito agora,além, agonias antagônicas.
Ando até às ânsias, austera, atordoada,
A amar, acatar, arritimias anacrônicas.

Acato anunciações aflitas, aclamadas;
Aguento ainda as apatias,ando atônita.
Até as alegrias aparecem arritimadas,
Até a alma à angústia aclama, assincrônica.

Alguma atresiada ação ainda anda a aplaudir
A acíclica aproximação assistida aqui,ali,
Ante a agonia, a aumentar a apreensão.

Alguma assonante ação ainda assiste a antagonia
Aproximando a abstração, abrasadora alegoria
A assassinar a alegria, a agonizar a aflição.

 

 

[outro de 2010 e de meus delírios pseudoeruditos]

Âncora-Furacão

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Ballerina II, Miró

Vê: Nunca estou em casa

E por isso pertenço a todo lugar.

Não há porto que resista

Às âncoras-furacão

Que trago em minha canoa.

 

Venho de tempestades juvenis

Com a senilidade da calma

E venho na paz de não esperar

Nada além do imprevisto.

 

Venho de terras redescobertas

Pelos poemas que lá brotaram

Saboreei meu próprio sangue

Espalhado pelas ilhas de memórias

Assombradas por mágoas infantis.

 

Venho de lugares que não mais existem

Porque eles vivem no fundo dessas retinas

Que não são capazes de ver repetições.

 

Vê: Nunca estou em casa

Estou sempre a esmo e me banho

Nos respingos do que me apavora

No vapor do que me prepara,

Nesse mar que me contém.

 

Até o horizonte parece sinuoso

E os desenganos não cessam

Aguardam verdades mutáveis

Aguardam meu mergulhar.

 

Canoa de verbo e acorde

Âncora de medo e sanidade

Lar infindo da itinerância

Eis minha vida

Eis minha morada

Eis o meu parto:

Nasci para partir.

Esfinge

Há uma esfinge nos teus olhos
Secos e negros olhos
Prolixos e silenciosos
Disparando teus enigmas,
Contemplando a imensidão.

Há uma esfinge que maltrata
Os meus olhos vítreos
Em busca de um tesouro
De mil vidas faraônicas
Mumificadas aí em ti.

A encaro,
Me enfeitiço;
Teu mistério
É movediço.

 

[2015]

Podres Putas Puras

[esse poema maluco é de uma época de delírio juvenil, 2010]

 

Putas puras pairam pelas praças
Procurando pelas putas podres pra penhores.
Porém putas puras preservam pudores
Presos por pecados, por pirraças.

Putas podres passeiam pelos pontos
Por precisarem perseguir pecúnias.
Putas puras perfumadas por petúnias
Procuram putas podres por preços prontos.

Putas puras perscrutam prazeres perdidos
Por possuírem perenes proibições.
Piscam, pescam putas podres, perdições
Portam preces, porém permanecem pervertidos.

Parcas, pardas, parcimonizadas,
Putas puras prostituem purezas preciosas.
Perecendo piegas, porém, perniciosas,
Prelibam poderes –Pedantes piadas!

Porém, putas podres, perspicazes, preludiam
Para putas petrificadas pósteras poentes.
Pureza perfídia: Prisão permanente!
Póstumos pudores por pauladas pereciam!

Preparem-se, puros pensadores!
Protejam-se, pregadores pernósticos!
Putas parirão protestos poéticos,
Perante putas prostrar-se-ão pobres pavores.

Putas puras, pressurizadas por preconceitos
Plangentes permanecem por pífias previsões…
Porém, perder-se-ão preconizadas punições
Pois permaneceremos, podres putas, putos pecados perfeitos!

Permaneceremos, podres putas, permissivas, permitidas
Pois purezas perderam propósitos, praticantes.
Permaneceremos, podres putas, perfeitas, pululantes,
Passeando pelas praças, paraísos –Poesias paridas.