No princípio era o Eros

No princípio, era o Eros
Duplo gozo, una célula
Dupla morte, una história
Que todo amor é um morrer-se
Para renascer-se amado

No princípio era o Eros
Dane-se verbo! Era substância
Úmida e quente e humana.
O verbo desmanda, o Eros apenas é.
Definitivo, Palpável, Saboroso.

Ao fim de tudo, a humanidade
é uma orgia que não deu certo.
E nos castraram com crucifixos
E nos domaram com moralismos
E amputaram da nossa alma
O mais fundamental excesso.

Mas permanecerá – pulsante – o Eros
Sem regras, sem medo, sem o perverso
Pois é tudo princípio – É tudo universo
Úmido, quente, humano,
Renascido amado nas pequenas mortes
E definitivo e palpável e saboroso.

A Solidão Desta Noite

 

A solidão desta noite,

Extingo-a.

Deixo que a luz açoite

À míngua

O silêncio que é a cegueira.

 

A solidão desta noite,

Entrego-a

Até que a lua entoe-te

Uma trégua

E teu amor cegamente me queira.

 

De olhos bem fechados

Sei vê-la.

Pena deus-sol ter virado

Estrela

E eu ter perdido a fé!

 

De olhos bem fechados,

Retrato-a

Pois amor é só um fardo

Uma estátua

A refletir o brilho que vier.

 

A solidão desta noite,

Extingo-a,

Pois a lucidez destrói-te

E a língua

Traduz a perfeição em asneira.

 

A solidão desta noite,

Entrego-a.

E esta fé que constrói-te,

Só cego-a

Se, tateando, me amares inteira!