bater a cabeça na parede

estou fazendo esse poema
porque quero bater a cabeça na parede

pobre de mim

uma vida inteira num quarto bagunçado
me colocando nas paredes
me colocando entre paredes
e agora querendo rompê-las
com a maldita cabeça
que tanto pesa
quanto eleva

pobre de mim

eu quero marcar o que me contém
eu quero estar no que me contém
eu quero ser o que me contém
eu quero matar o que me contém
eu quero me matar pra matar ninguém

eu quero rimar
pra que os fins façam sentido
e que o meio seja qualquer coisa
pathos latos fatos rugidos

vem o rompante
de bater a cabeça na parede
por trás
pela frente
como se faz sexo
quando se esquece do amor

mas agora eu tenho que me recompor
e respeitar as malditas leis do mundo
que ninguém me ensinou
então não bato a cabeça na parede
baato apenas as palavras
na tela em branco
até que elas consigam
me atravessar

Arcada do Leitor

eu venho sangrar aqui
estou falando e escrevendo
narrando esses signos símbolos sísifos

mastigando
engolindo
vomitando

o leitor reside em minha boca
o leitor penetra em minha boca
e eu apenas arreganhada
deixando que se corte em meus dentes
no seu movimento frenético

minha arcada é a arcádia do leitor
já não arco com as consequências
minha arcada aquece o ar de cada leitor
arfando o fado em farpas e cadências
minha arcada é arcada pela dor
arreganhada no pilar de sua indecência

eu venho sangrar aqui
e só quem bebe desse sangue
é capaz de me sentir

Discurso de Abertura

Árvore da Vida – Gustav Klimt (1909)
(Poema de 2011)

 

Eu vim inaugurar a minha era

De poesia

De tempo

De solidão.



Construo as ruínas

Das revoluções que sonhei.

E não tive companheiros,

Não tive semanas,

Sequer rupturas.



Sou movimento inexequível

De uma mulher só.



Ferida pelos afagos

Emocionada pelos sangramentos urbanos

Eu vim inaugurar minha era

De espaço

De paredes

De esgotos.



Os poemas se perdem em mares mais infinitos que os de Camões.

As graças não são dos clowns de Shakespeare

Nem da libertação de Bandeira.



A poesia está empoeirada

Varrida para os cantos

Porque há muito pouco poeta

Perante esta imensidão vazia e farsante

De palavras maquinais e doces e remoídas

(Remoídas palavras de adolescências nulas).



Os jovens vivem para postar outro retrato:

Enquanto isso eu lia aquele céu...



Eu vim inaugurar a minha era

De barroco

De barreiras

De aldeias

Globais e quadradas.



Há tantos pensamentos possíveis sobre o impossível

E correm os urânios e livros sagrados, me perdi

E correm os degraus e as novidades, beleza qual?

Eu sou um anacoluto na sintaxe XXI?



É porque vim fazer o já tão refeito

Que ninguém anseia mais.

Olha os puritanos e os alexandrinos!

Estou tão só? Estou tão cega? Há paredes aqui?



Mas eu vim,

Vim inaugurar a minha era

Sem temor

Sem leitor

Sem autor

Sem poema.