Poema da Falta

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Primeiros dias da primavera, Salvador Dalí (1929)

 

Sinto sua falta
Inicialmente de forma anestésica:
Não sei discernir se é vazio ou se é tumor
E busco com os olhos e mãos
Palpar essa dormência cruel.

Depois, a dor vem gradativamente
Dando umas pontadas de desespero
Tocando a campainha e saindo correndo
E eu lá, na porta, feita de boba
A buscar respostas já tão corriqueiras.

Aí, depois, como é agora
Sinto sua falta como se os pés de deus
estivessem comprimindo meu peito;
sinto sua falta como se todos os dicionários
estivessem atravessados em minha garganta;
sinto sua falta como se sequer houvesse falta:
atônita, inerte, errática.

Vejo lá fora uma lua quase cheia
e tento comprimir o desejo
e injetá-lo no árduo cotidiano.
Não adianta.
Eu sinto sua falta de forma tal
que o desejo por ti se multiplica
exponencial e ferozmente
e me rebato tentando ir mais rápido
aparar numa colher de chá uma cachoeira
que farfalha teu nome.

E no espelho do poema enxergo essa falta.
A falta do ar quente em meu pescoço
E das tuas pernas pesadas em minhas pernas
Quase âncoras me trazendo à tona
O tônus e a tônica do real.
Enxergo essa falta e me aproximo.
Morresse eu mil vezes pelo espectro da saudade
Mil e uma vezes eu voltaria
Só para contemplar teus olhos novamente
Na pérola absurda da despedida.

Sinto tanta falta que nem choro.
Que nem coragem tenho de admitir tamanha falta
És, de todas as desnecessidades,
A mais indispensável.
Tens um sabor sereno de quase certezas
Tens uma calidez que envolve meus medos
Tens tudo que nunca imaginei que existisse
E que por isso é tão verdadeiro.

As minhas pobres palavras nada significam.
Essa falta tem o silêncio de um abismo
E tudo que te digo soaria mentira
Diante daquilo que nem eu descobri.

Mapeio minhas dores mas o amor é labirinto:
Sempre retorna a si mesmo no além da causalidade
E por isso desenhá-lo seria uma tolice
Posto que suas paredes
Formam o mais aconchegante dos lares.

Sinto sua falta como um rio intermitente
Escondido na beira dos sertões de minha alma
Sedento e carente fóssil de si mesmo,
Porém perene cicatriz diante da esperança de retorno.

E sei que retornas.
Volta e meia voltas aos meus braços
E me despeço momentaneamente da falta.
A guardo no bolso como lembrança
Para logo depois te deixar me despir.
Nua permaneço diante de ti:
Aprendi a encarar qualquer ausência
Aprendi a percutir minhas lacunas
E por isso não tenho medo de perder
O tesouro da tua saudade.

Sinto a tua falta
Nas catarses, nos detalhes;
Eu poderia até escolher te deixar
Deixar essa falta que me machuca
Mas antes sentir tua falta
Do que não mais te sentir.

Há entre nós beleza de sobra;
Beleza, amor, chão e vontade.
Jogando isso no mar
Nasceu a palavra “Saudade”
Mas onde eu moro não tem mar
Onde eu moro só tem morro
E de saudade eu não morro,
Amor, eu te juro que não morro.

Devo dizer que nem me canso.
Apenas abraço a velha dor.
Sinto tua falta, mulher,
Sei que sentes a minha,
Mas assim que a percebo
E a vejo esculpida num poema,
Aceito que a beleza da falta
Se deve à lâmina do amor:

O amor não fere.
O amor só cria,
Nos caminhos da falta,
Uma ode ao permanecer.

Permanecemos.

 

 

 

 

 

Estigma do Tempo

 

São sete chagas por semana
E o tempo é um algoz sem piedade
Devorando nossos sonhos
Com suas arcadas em forma de ponteiros
Inventados pelas nossas ambições.

A cozer minhas vísceras restantes
Com a ânsia que é saber-me finita,
O tempo sente o aroma da vida
Que cede, pouco a pouco, aos seus caprichos.

Quem é ele? Deus ou demônio?
Não há descrença que o neutralize!
São sete chagas por semana
Tingidas de aprendizados inúteis,
Forjadas no metal esquálido da natureza
Pelas nossas manias de fingir dominar
O que na verdade nos contém.

São sete chagas por semana
Endeusando grandezas de quintessências nulas
Enquanto o tempo é um algoz sem piedade
Devorando os sonhos que nunca chegam
Com seu silencioso abismo que nos aguarda.

Atravessar-te


Criança travessa
 A espiar a vida
 Pelo buraco da fechadura

Vê através
 de seus olhos afixados
 pensa através
 de seu mundo ensinado
 aprende através
 do seu alfabeto desenhado
 mas nunca atravessa,
 criança travessa,
 os entraves de si

Travessura pouca
 disciplinada por métodos
 esquecida das artimanhas
 que sabe amanhã
 a sua travessura
 atravesse seu saber com arte
 para que ignores a fechadura
 e, enfim, consigas 
atravessar-te.

À Sombra da Castanheira

 

 

Cá estou à sombra da castanheira
Em algum lugar das Minas Gerais
Perdida em minhas ausências
E a solidão no compasso das borboletas
Sempre perto da morte,
Sempre fruto da feiura,
Sempre retrato do efêmero.

Quero sempre destoar de mim
Iconoclastia desafinada
Ondas de pedra, sol de lamparina,
Falta-me o mundo inteiro
Falta-me a morte da vontade
Falta-me mensurar os segredos.

Tudo em mim é redemoinho
Olhos as pessoas e as atravesso
Parçeo um bicho na gaiola da normalidade
Tendo ódio e abrigo
No pavor martirizante da segurança
Desejando sair de si
Desejando correr na seslva do real
Desejando o retorno do imprevisível.

Faz frio e já não importa.
Eles me olham e eu rio.
Eis o espetáculo das vossas aparências.
Sei tanto e crio tanto e não sou nada
Vivi tanto, doei tanto, sem ter nada
Nada que importase a esses olhos
Nada que me salvasse desses medos
Nada que adoecesse a razão.

Deixei pegadas vãs na lama de tantas memórias
Mas sinto como se nunca desse um passo.
É a mesma angústia,
O relógio muda as horas
Sem tiquetaquear.
A vida murcha para caber nos arranjos
Enfeitando a estante de troféus:

“Foste grande sabedor”
“Ganhaste dinheiro”
“Temeste a Deus”
“Aceitaste as respostas”
Uma galeria de conquistas brilhantes
E lá no canto a flor murcha
Da tua vida opaca e seca
Exalando o perfume acre da frustração.

Continuemos a fingir que somos algo
Continuemos
E a trabalhar pelo luxo
Que não levaremos no sarcófago
Continuemos
Não há espaço para mais nada.

Estamos perdidos mas nem sabemos onde
Se em nós mesmos
Ou se nos alicerces do mundo
É só uma imensa anomia
Onde não se existe além
Onde toda ruptura é uma mentira
Onde tudo, teu questionamento
ou tua conformação,
TUDO,
desemboca no mesmo abismo de sempre.

Tenho ignorado cada vez mais

 

 

Tenho ignorado cada vez mais.
Minhas palavras estão mais simples:
Quero reduzi-las ao repertório de uma criança
E com elas explicar alguma verdade.
Não careço de muito pra chegar o todo:
O próprio silêncio esconde em si
Dimensões que se desdobram
E recobrem as folhas e as pedras
De respostas à espera de nós.
Vejo o cão que se conctorce no meio da rua
E a motocicleta que o contorna
Carregando bicho-homem.
Isto tudo é natureza.
Não preciso desenhar espécimes
Ou perscrutar jaulas humanas.
A pedra lapidada, a pulga incômoda,
O motor ruidoso -Isto tudo é da vida.
Tenho ignorado cada vez mais
E por isso tanto aprendo
Tanto anulo as perfomances mentais
que nos forçam a identificar
purezas e impurezas
salvações e criminalidades
liberdades e cegueiras.
Ja não quero diferenciar estas vestes.
Não preciso de bucolismo ou nostalgia
Grande merda o campo
Grane merda a gasolina
Grande merda o Hare Krishna
Grande e insignificante adubante merda, eu.
Não quero regras atravessando minha garganta
Das fantasias, só sei a concretude
Todo o resto não se toca nem cheira
Apenas se vive.
Sei viver demais quando os sentidos cessam.
Resto no não-saber que é desligar-se
De quaisquer identidades.
Tenho ignorado cada vez mais
E de tão diluída
Me basto